Demagogia II

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No meu último artigo falei da necessidade que os políticos têm de mentir como forma de enganar os eleitores e, desta forma, convencê-los a votar no seu partido. Há, porém, outro factor que demonstra a decadência da democracia e que reside na fragmentação da sociedade civil e na excessiva partidarização do cenário político .

Quando um país se organiza em torno de uma língua, de uma geografia e de tradições comuns presume-se que o seu povo estará disposto a promover um objectivo que seja comum a todos. Porém, alturas há em que os interesses de um grupo parece que se sobrepõem aos interesses de todos. Por exemplo, em momentos determinados da sua história, a Escócia acabou por não conseguir proclamar a sua independência porque os nobres desta nação íam sendo comprados com favores e benesses oferecidas pela vizinha Inglaterra. Assim um todo prejudicou-se em favor de uns quantos. Os interesses egoístas de uns prejudicaram todos.

Neste momento, sentimos uma certa falta de orientação do país. É necessário que o governo e a União Europeia expliquem aos cidadãos europeus qual o seu rumo, qual a sua estratégia e qual o sentido a médio e longo prazo da austeridade.

O povo, os jovens, os farmacêuticos, os estivadores, as forças de segurança, os professores, etc.etc. reclamam porque o governo está a afectar direitos que estes julgavam desde há muito já consolidados. Por isso, há revolta. Sabem que é preciso fazer alguma coisa mas não querem que esse “alguma coisa” os afecte.

Por outro lado, temos também que destacar como altamente negativo o papel actual dos partidos políticos. Também eles actuam como o povo, as classes e os grupos da sociedade civil, isto é, numa perspectiva egoísta de pensar em si mesmos e nos seus próprios interesses. As sondagens são mais importantes que o país.

O bem comum, a pátria, o destino do nosso país não parecem interessar a ninguém.. O grande objectivo é não perder privilégios. No caso dos partidos políticos, o objectivo é aproveitar o contexto da crise para chegar ao poder, nuns casos, ou para não perder o poder, nos outros.

Senão vejamos. O PCP e o Bloco de Esquerda rejubilam com a actual crise. Qualquer manual básico de ciência política ensina que os partidos de esquerda e extrema esquerda encontram o seu ambiente natural de crescimento sempre que as dificuldades económicas aumentam. E quanto maior instabilidade, quantas mais greves, quantas mais pessoas na rua, melhor.

O CDS/PP não hesita em apunhalar nas costas o seu parceiro de coligação tentando demarcar-se da austeridade de forma a assegurar mais uns votos nas próximas eleições.

O PSD continua a actuar, por vezes, com arrogância, sem explicar as medidas, sem dialogar quando devia e sobretudo continua a hesitar e a titubear em reformas importantes na área da administração pública e da renegociação das PPP’s.

Por fim, o PS tem um comportamento a todo os títulos inadmissível. Enquanto principal causador da actual crise deixou o país na bancarrota, não hesitando em agravar o déficit nas eleições de 2009 só para agradar o povo. Agora, assobia para o lado, distancia-se do acordo com a Troika que foi por si assinado e recusa-se a participar em negociações com o governo com vista à redução do peso do Estado e ao reforço da sua eficácia.

Cada um puxa, para o seu lado. Cada um quer salvaguardar o seu espaço. Os interesses das novas gerações, o futuro estratégico do país não interessam nada.

Nisto se mostra que a crise actual é também uma crise grave da Democracia.

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